Lisette Oropesa: “Senti-me como se tivesse saído de mim”


Lisette Oropesa, na ária
Lisette Oropesa, na ária “Addio del passato” JAVIER DEL REAL

O soprano fala com a ABC sobre o bis que deu terça-feira no Teatro Real em “La traviata”

MadridUpdated:30/07/2020 12:24h

Lisette Oropesa já sabia o que era cantar um bis no Teatro Real. Há alguns anos atrás, repetiu o sexteto de “Lucia di Lammermoor” numa das actuações da ópera de Donizetti. Mas nessa ocasião foi acompanhada pelos seus companheiros de casta neste belo concertinante, entre eles o tenor Javier Camarena. Mas a soprano hispano-americana (de origem cubana, nasceu em Nova Orleães e há alguns meses obteve a nacionalidade espanhola) tornou-se a primeira mulher na história recente do Teatro Real a dar um bis a solo. Fê-lo na terça-feira, na sua actuação final como protagonista na ópera “La traviata” de Verdi, e num dos seus

momentos mais significativos: a ária de terceiro acto “Addio del passato”; nela Violetta Valèry, no seu leito de morte, lamenta a vida que lhe escorrega pelos dedos e recorda Alfredo Germont, cujo amor teve de abdicar.

“Tutto fini!” – “Está tudo acabado!”

. Lisette Oropesa cantou a última frase da ária e foi imediatamente respondida por uma ovação ensurdecedora. Foi inesquecível”, recorda o soprano. A audiência não podia deixar de aplaudir, todos estavam de pé, podia-se até ouvir pessoas a pontapear no chão. Foi algo fora deste mundo. E ela decidiu cantar o bis. Mas o que ele fez não foi repetir a ária, mas cantar o segundo verso (com a mesma melodia do primeiro), que normalmente é encurtado para não prolongar o momento dramático.

Muito excitado

Ventoinhas distribuíram na actuação de sábado um papel que dizia:
Ventoinhas distribuíram na actuação de sábado um papel que dizia: “Somos fãs de Lisette, vamos pedir um ‘bis’ na ária ‘Addio del passato’ do terceiro acto porque Lisette merece” – ABC

p>Excepção para o referido bis em “Lucia di Lammermoor”, Lisette não tinha experimentado um dos destinos mais invulgares no mundo da ópera. “É a primeira vez na minha vida”, diz a soprano, que confessa mal ter dormido por causa da emoção que experimentou no Teatro Real na terça-feira à noite. A atmosfera, ela sabe bem, foi predisposta. Um grupo de fãs já tinha distribuído um pedaço de papel na actuação do último sábado que dizia: “Somos fãs da Lisette, vamos pedir um ‘bis’ na ária ‘Addio del passato’ do terceiro acto porque a Lisette merece”. Ela assegura-nos que não foi isto que a levou a repetir a ária. “No sábado, os aplausos não foram tão intensos, e eu não senti o que senti na terça-feira. Não foi algo planeado, foi a resposta à reacção da audiência. Um bis não é algo que se compre”.

E o bis foi algo que veio naturalmente, organicamente, diz ela. “Antes do espectáculo tínhamos falado sobre essa possibilidade, mas pensei que seria depois da ”Sempre libera” do primeiro acto. Mas isso não aconteceu. Contudo, depois do “Addio” senti a necessidade de o fazer; senti-me honrado e sobrecarregado, e senti-me muito grato. Sei que há pessoas que são contra os bis, mas não devemos esquecer que cantamos para a audiência, devemos isso à audiência, servimo-los. Eles exigem um bis e é uma bênção poder oferecê-lo. Eu estava bem disposto e fisicamente bem o suficiente para o fazer. Além disso, foi a minha última actuação; caso contrário poderia não o ter feito.”

“Addio del passato” é uma ária que é cantada com emoção no seu auge. “Em nenhum momento deixei de ter carácter. Não deixei de pensar nele, para mim era importante não abandonar a história. Foi por isso que me curvei, ajoelhei e cantei como Violetta, não como Lisette, as letras que normalmente não são cantadas; foi como se estivesse a seguir a ária. Foi pura emoção. Eu estava a chorar, sobrecarregado. Foi como se nesse momento eu tivesse saído de mim próprio”

Lisette Oropesa estrelou no sexto bis de terça-feira no Teatro Real desde a sua reabertura em 1997. Dois deles foram dados pelo barítono italiano Leo Nucci em “Rigoletto” (em 2009 com Patricia Ciofi e em 2015 com Olga Peretyatko); Javier Camarena encorajou em 2014 a ária dos nove Dos de pecho de “La fille du régiment” e em 2019 “Una furtiva lágrima”, de “L’elisir d’amore”. O quinto bis foi o já mencionado Sexteto de “Lucia di Lammermoor”

O quinto bis foi o já mencionado Sexteto de “Lucia di Lammermoor”.

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