Estudo Bíblico Comentário (Português)

Recursos de PREENCHIMENTO
Por Richard Niell Donovan
Tradução por Angeles Aller

MATTHEW 7:13-27: PORTAS LARGAS E PROFETOS FALSOS

A nossa lição de Evangelho faz parte de uma unidade maior (vv. 13-17) na qual:

– Jesus avisa-nos de portões largos e estradas largas que levam à destruição. Pede-nos que passemos pelos pequenos portões e estradas estreitas que conduzem à vida (vv. 13-14). Não só somos tentados por pecados óbvios (o abuso de sexo, dinheiro e poder), mas também somos tentados a tomar atalhos para criar o reino. Lembro-me de uma placa em frente de uma igreja que anunciava: “Menos conversa, mais ‘pedra'”. Tínhamos estado à procura de um lugar para adorar mas, depois de ver o sinal, demos meia volta, entrámos no carro, e encontrámos outra igreja. A igreja que se preocupa mais em encher bancos do que em criar discípulos certamente não cumprirá nenhuma dessas duas preocupações.

– Jesus avisa-nos de falsos profetas, lobos ferozes em pele de ovelha – que querem ser conhecidos pelos seus frutos (vv. 15-18). No tempo de Mateus, a igreja lutava contra a perseguição de fora, e também contra falsos líderes dentro.

– Jesus adverte que toda a árvore que não der bons frutos será cortada e atirada ao fogo (v. 19).

– Jesus adverte que só aqueles que fazem a vontade do Pai que está nos céus podem esperar entrar no reino dos céus (vv. 21-23).

– Jesus adverte que aqueles que não agem com base nas Suas palavras são como uma casa construída sobre areia – rumo a um grande colapso (vv. 24-27).

Cada um destes avisos descreve dois tipos de pessoas – as que escolhem o caminho certo e as que escolhem o caminho errado – as que produzem bons frutos e as que não produzem – as que fazem a vontade do Pai e as que não fazem – e as que constroem na rocha ou as que constroem na areia. Ao longo da vida, fazemos escolhas que levam à vida ou à morte – à salvação ou condenação.

h2>MATTHEW 7:21-23: NÃO TODOS OS QUE ME DIZEM, “SENHOR, SENHOR”

21Nem todos os que Me dizem: “Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus. 22Ninguém me dirá naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expulsamos demónios, e em teu nome fizemos muitos milagres? 23E então protestarei contra eles, nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós obreiros da iniquidade (grego: anomian – lawless).

Jesus descreve pessoas que parecem cumprir um grande ministério. Estas pessoas não só chamam Jesus ‘Senhor’, mas também conseguem fazer actos espectaculares em nome de Jesus. Eles profetizam, expulsam demónios, e realizam grandes feitos pela causa de Cristo. Pensamos, por exemplo, nos evangelistas de TV – actores que dizem aos deficientes para deitarem fora as suas muletas em benefício da câmara – vender lenços de orações em troca de dinheiro – o seu tempo de TV é dedicado mais à angariação de fundos do que ao ministério – explorar os vulneráveis por motivos pessoais.

Mas não devemos assumir que Jesus dirige estas palavras apenas a outros. Quem somos nós para dizer que as pessoas com pequenos ministérios continuarão isentas? Será possível que Jesus rejeite uma pessoa que tenha dedicado a sua vida ao ministério? Será possível que Jesus rejeite um clérigo com anos de experiência, um diácono, um membro do coro, um professor de catecismo, ou o presidente de um conselho? Se assim for, porquê? Por que critérios seremos julgados? Como decidirá Jesus se nos aceita ou rejeita?

p>A linha divisória é se fizemos ou não a vontade do Pai (v. 21). “O ensino do Sermão da Montanha não é para ser admirado, mas para ser obedecido” (R.T. France, citado em Blomberg, 133). Nenhum grau teológico ou um grande número de anos de oficialização numa igreja nos pode salvar. Um currículo que impressionasse um comité de busca pastoral não balançaria o Senhor com a sua capacidade de ver através das coisas – capaz de ver até às profundezas dos nossos corações espirituais.

É tão fácil ocupar-se com o trabalho da igreja sem parar para pensar se estamos realmente a obedecer a Jesus – ocuparmo-nos com programas enquanto esquecemos as pessoas – preparar sermões enquanto esquecemos de orar – fazer grandes coisas em nome de Jesus enquanto esquecemos Jesus – assumir que os bancos cheios validam o nosso ministério quando o facto é que perdemos o contacto com o Senhor.

Se cumprir a vontade do Pai é tão importante, qual é a vontade do Pai? Para Mateus, a vontade do Pai é manter a Torá tal como Jesus a interpretou. No Sermão da Montanha, Jesus diz-nos que a obediência requer pobreza de espírito, luto, timidez, fome e sede da verdade, piedade, pureza de coração, e fazer a paz (5:2-11). Exige que nós:

p>Deixe a nossa luz brilhar (5:16);
-Servir os mandamentos (5:17-20);
-Discutir a raiva e resolver conflitos (5:21-26);
-Manter relações matrimoniais adequadas (5:27-32);
-Fale honestamente sem alarido ou palavrões (5:34-37);
-Deixe-nos agir com amor e generosidade – mesmo para com os nossos inimigos (5:38-48);
-Deixe-nos dar esmolas e rezar em segredo (6:1-6);
Deixe-nos perdoar (6:14-15);
Deixe-nos procurar primeiro o reino de Deus (6:24-34);
Deixe-nos abster-nos de julgar (7:1-5).

Na continuação deste Evangelho, Jesus oferece mais discernimento sobre a vontade de Deus. Devemos mostrar misericórdia (9:13); falar a palavra que Deus nos dá mesmo em circunstâncias adversas (10:19-20); cuidar dos pequenos e procurar e salvar os perdidos (18:10-14); resolver conflitos (18:15-17); preservar a justiça, a misericórdia e a fé (23:23); alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, visitar o prisioneiro (25:31-46); e fazer discípulos de todas as nações (28:16-20).

Isto faz-nos pensar na salvação pelas obras. Somos nós salvos pelo que Jesus fez, ou pelo que fazemos? Seria fácil interpretar mal a exigência de Jesus de fazer a vontade de Deus. Jesus não defende a salvação pelas obras, mas uma fé autêntica que produz bons frutos – que nos leva a agir de acordo com a vontade de Deus – que nos guia para uma acção leal.

“Nesse dia” (v. 22) refere-se ao Dia do Julgamento.

No v. 23 Jesus avisa que repudiará qualquer relação com a anomia, que o NRSV traduz como “trabalhadores da iniquidade”.

No v. 23 Jesus avisa que repudiará qualquer relação com a anomia, que o NRSV traduz como “trabalhadores da iniquidade”. Anomia vem da palavra grega para lei (nomos). O “a” com que a palavra “a” começa inverte o significado, portanto, anomia significa “sem lei” – a rejeição da Torah tal como interpretada por Jesus.

MATTHEW 7:24-25: UM HOMEM PRUDENTE, QUE CONSTRUI SOBRE A PEDRA

24Quem, portanto, ouve estas minhas palavras, e as faz, eu o compararei a um homem prudente, que construiu a sua casa sobre uma rocha; 25 E a chuva desceu, e vieram as cheias, e os ventos sopraram, e bateram naquela casa; e ela não caiu, porque foi fundada sobre uma rocha.

Jesus pode falar com autoridade sobre a construção de casas. Como carpinteiro (Marcos 6,3), Jesus compreende a construção de casas. Aqui ele fala como arquitecto, aconselhando-nos sobre o princípio mais importante da construção – a colocação das fundações. Nenhum plano pode ser finalizado antes de termos um lugar onde possamos construir, e nada é mais importante do que ter uma base forte nesse lugar. Fundações fortes tornam possível que a casa sobreviva passando por terríveis tempestades.

Quando descrevemos uma casa, podemos falar da cor da tinta, do número de divisões, ou do design da cozinha. Jesus fala apenas da fundação. O que distingue esta casa das outras é que, sendo construída sobre uma base forte, pode sobreviver ao pior tempo imaginável. A sua força foi estabelecida no início – com a fundação.

Nota que a casa não é poupada das tempestades. A sua sobrevivência não depende de estar ou não protegida. Isto sugere que Deus não protege os cristãos das tempestades da vida (doença, acidentes, morte, perda de emprego, e assim por diante). Enquanto a fé pode reduzir o nosso nível de stress e a oração pode, em algumas circunstâncias, levar a curas milagrosas, os cristãos devem estar preparados para viver as tempestades e tragédias tão comuns aos seres humanos.

O teste final, claro, é “o teste final, o dia do julgamento” (Keener, 167). Nesse dia, Deus removerá todos os pretextos. Aqueles que apenas parecem ter fé serão deixados como lixo como uma casa flácida no meio de um grande furacão.

O que nos dá bases fortes? Ouvir e guardar as palavras de Jesus (v. 24).

Antes de podermos guardar as palavras de Jesus, temos de as ouvir. A fonte mais credível das palavras de Jesus está nas escrituras, na pregação e no ensino da igreja, e no mistério dos sacramentos. Também podemos ouvir as palavras de Jesus nos livros, música e jornais cristãos, bem como nos conselhos dos amigos cristãos. Além disso, é mesmo possível que Cristo nos fale através de meios menos tradicionais – livros seculares, peças de teatro, filmes, música, ou experiências pessoais. Contudo, precisamos de reconhecer que quanto menos tradicional é o meio, menos credível é a mensagem. Devemos examinar todas as possibilidades, colocando-o lado a lado com a escritura para verificar a sua validade.

MATTHEW 7:26-27: UM HOMEM SÁDIO QUE CONSTRUI SOBRE A LISTA

26 E quem ouvir estas minhas palavras, e não as fizer, eu o compararei a um homem insensato (grego: mouro – de mouro), que construiu a sua casa sobre a areia: 27 E a chuva desceu, e vieram as cheias, e os ventos sopraram, e bateram naquela casa; e ela caiu, e grande foi a sua queda.

Jesus falou-nos do homem sábio. Agora ele fala-nos do homem tolo. A palavra grega é moros – da qual obtemos a palavra moron.

O homem sábio e o homem tolo encontram-se em circunstâncias idênticas – chuva devastadora, inundações, e vento. A diferença não está nas circunstâncias de cada homem, mas na casa (que serve de metáfora para o próprio homem). A casa do sábio sobrevive porque ele a construiu sobre a rocha (palavras de Jesus). A casa do homem tolo cai porque ele a construiu sobre areia. A diferença é se fizeram ou não o que Jesus ensinou.

p> A nossa cultura secular diz-nos que não é assim tão simples. Insiste que a verdadeira sabedoria requer uma boa educação – uma carteira de investimentos diversificada – seguro contra catástrofes – sexo protegido – exercício – uma dieta nutritiva – uma visita anual ao médico. Ironicamente, as pessoas que rejeitam o fervor religioso, acreditando que é fanático, são muitas vezes as mais fervorosas sobre estas coisas. Em muitos casos, o dinheiro e a saúde tornaram-se o seu deus.

E mais cedo neste sermão (o Sermão da Montanha), Jesus referiu-se a este materialismo, dizendo: “Não estejais, pois, ansiosos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Pois os gentios procuram todas estas coisas: pois o vosso Pai celestial sabe que vós tendes necessidade de todas estas coisas. Mas procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (6,31-33).

p>O povo que Jesus descreve como ‘sábio’ ou ‘tolo’ são pessoas religiosas. Tentaram obedecer às palavras de Jesus. “A casa que colapsa é a casa cristã que acha as palavras de Jesus suficientemente importantes para ouvir, mas não suficientemente realistas para viver” (Bruner, 290).h2>MATTHEW 7:28-29: ELE ENSINOU COMO UM QUE TINHA AUTORIDADE

28 E aconteceu que, quando Jesus terminou estas palavras, as multidões ficaram espantadas com o seu ensino; 29 Pois ele ensinou-as como alguém com autoridade, e não como os escribas.

“Como Jesus terminou estas palavras” é o sinal de Mateus que uma secção importante do ensino concluiu (ver 13:53; 19:1; 26:1 – também 11:1).

Jesus “ensinou-os como alguém com autoridade”. As suas palavras têm autoridade, não só para instruir mas também para curar. Neste Evangelho, ele dirá a um leproso: “Sê limpo”, e o leproso será imediatamente curado (8:3-4). Dirá a um centurião: “Vai, e como acreditaste que te foi feito”, e o servo do centurião será curado nesse momento (8:13). Dirá a um paralítico: “Levanta-te, toma a tua cama, e vai para casa” e o homem fará exactamente isso (9:6-7). As palavras de Jesus têm uma autoridade convincente.

a autoridade de Jesus distingue-se dramaticamente da prática de adiar a autoridade. Escribas, autoridades reconhecidas pela sua interpretação das escrituras, citaram os famosos rabinos para apoiar os seus argumentos. Jesus, contudo, “ensina sem notas; baseia o seu ensino na sua própria autoridade” (Long, 85). Neste sermão (o Sermão da Montanha), Jesus repete repetidamente: “Ouvistes que foi dito … mas eu digo-vos” (Mateus 5). Os escribas tiraram água envelhecida de cisternas fechadas. Mas as palavras de Jesus eram como um riacho; limpo, fresco, com poder para saciar a sede da alma” (Buttrick, 335).

TEXT QUOTED OF THE HOLY SCRIPTURES vem do espanhol Reina Valera, localizado em http://www.ccel.org/ccel/bible/esrv.html. Utilizamos esta versão da Bíblia porque é do domínio público (não sob protecção de direitos de autor).

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