Brown pride

E no meu país, os racistas ainda nos enviam para tomar banho. Há alguns meses, durante um debate eleitoral, um candidato branco entregou a um candidato não branco uma barra de sabão. Após a controvérsia, pela primeira vez um acto racista foi tratado como tal e maciçamente condenado. Finalmente, parecia que o hábito de impor complexos de alegada inferioridade àqueles que são de facto vítimas de racismo estava finalmente a desaparecer. O candidato ao sabão não foi eleito e o Ministério Público abriu uma investigação contra ele por discriminação.

Algo está a mudar? Há apenas alguns anos que existem organismos governamentais para alertar contra o racismo no Peru e mais políticas públicas anti-discriminatórias, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

A boa notícia é que, apesar do assédio racista ainda ser comum nas ruas e redes, a organização e o orgulho estão a ficar mais fortes. Há afro-descendentes e cholos a activar e a colocar o corpo, a fazer pedagogia dura todos os dias nos meios de comunicação, a publicar livros, a oferecer workshops e a participar em debates e palestras como “Quem são as marronas”, que deu recentemente Primakabra, activista castanho e dissidente sexual.

O que tem acontecido tem causado litros de “lágrimas brancas”, como é humoristicamente chamado a forma como os brancos respondem a estas questões. Este é também o seu momento: devem rever a forma como beneficiaram deste sistema que dá prioridade, cuida e exalta alguns organismos em relação a outros. Devem saber que para desmantelar esta ordem ainda-colonial só há uma maneira: participar na luta política anti-racista. Não será fácil, porque não é fácil aceitar que mesmo as suas boas intenções se baseiam numa construção racista e classista. Mas tem de ser feito.

Existe, além disso, uma tribo crescente de jovens dissidentes dos estereótipos raciais em toda a região, reivindicando o orgulho castanho, a sua arte, as suas histórias, combatendo a estética dominante, reivindicando-se através de fotos e vídeos como corpos que importam, que são bonitos e dignos de desejo, de amor e de cuidado. Eles lutam contra aqueles lugares comuns que relacionam, por exemplo, castanho com submissão, pobreza e dor.

A activista Sandra Hoyos, do colectivo argentino Identidad marrón, sente que castanho é, acima de tudo, uma identidade política. O que está para vir, então, é resistência e luta, de corpos negros e castanhos.

Se continuarmos a trabalhar contra o racismo, talvez um dia Marco não seja novamente banido de uma discoteca, nem José será confundido com o empregado na cerimónia de entrega de prémios que ganhou. Nem eu com a ama do meu filho. Nem Rosa com o ladrão de lojas no supermercado. Nem qualquer rapaz ou rapariga enviado para tomar banho por ser castanho.

Gabriela Wiener é escritora, jornalista e colaboradora regular do The New York Times. Ela é autora dos livros Sexografías, Nueve lunas, Llamada perdida e Dicen de mí.

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